O ARROJO DE ARROJA

2010-01-19

Por um mero acaso, com uma probabilidade facilmente  estimável que é inferior a um por mil, pude há dias acompanhar o  programa da TVI que António Perez Metello modera, e em que costumam  estar presentes Joaquim Pina Moura e Jorge Braga de Macedo. Desta vez,  porém, não estava presente o académico, mas sim o seu colega, Pedro  Arroja.
Há anos que o não via, embora, uma vez por outra, encontrasse algumas  referências à sua pessoa, ou mesmo textos de sua autoria, fossem de  simples opinião, fossem mais académicos. Num repente, penso que o  terei visto pela última vez num programa de debate em equipa, numa  situação em que nos surgia como se fosse uma espécie de cruzado em  defesa do mercado.
Desta vez, porém, e porque era ele mesmo que estava no uso da palavra  quando passei pela TVI 24, deixei-me ficar, de molde a poder  acompanhar o que estava a dizer e assim poder comparar com a muito má  ideia que de si me havia ficado nesse outro programa de há uns bons  anos.
Aconteceu-me, pois, o mesmo que ao moderador, algo espantado, como  facilmente se pôde perceber, embora me tenha parecido que Pedro Arroja  se mostrou não só muitíssimo realista, mas também tocando em feridas  que, de um modo muito geral, a generalidade dos comentadores e dos  políticos evita tocar. Focarei três dessas feridas.
Em primeiro lugar, o modo muitíssimo realista, até mesmo frontal e  repleto de coragem, como abordou o terrível estado a que chegou o  nosso Sistema de Justiça. Dificilmente um académico, até mesmo dos  mais consagrados do Direito, seria capaz de referir, e com tão grande  clareza, a verdadeira chaga que atingiu aquela nossa tão essencial  estrutura.
Em segundo lugar, aquela sua previsão, e que eu não esquecerei  enquanto Deus o permitir, de que o tal grupo de países da União  Europeia que os ingleses, de um modo não conseguido, tentam ofender,  designando-os de PIGS - Portugal, Italy, Greece and Spain -, virão a  ter de deixar o Euro, voltando às suas moedas anteriores.
Note-se, contudo, que Marcelo Rebelo de Sousa, há uns dois ou três  programas atrás, referiu que o Governo, com probabilidade elevada,  poderia vir a pôr de parte o cumprimento das metas impostas por  Bruxelas em relação ao défice, o que, a dar-se, acabará por conduzir  ao que Perdo Arroja referiu como previsão.
E, em terceiro lugar, o reconhecimento de que os povos do sul europeu,  mormente aqueles que se referem atrás, nunca foram muito eficazes na  vida em democracia. E não é verdade que já por aí corre, e até em  crescendo, a ideia de que os mecanismos da mesma poderão ter de ser  supensos, por não ser possível levar a carta ao Garcia de outro modo?  E não parece ser isso mesmo que está a dar-se com este modo de atuar  da nossa oposição, e de mil e uma outras estruturas essenciais, tudo  tentando obstaculizar desde que venha do Governo de José Sócrates ou  tenha sido feito no seu anterior Governo? E não foi isto mesmo que eu  referi a amigos meus em Almeida, logo ao início de certa tarde dos  primeiros dias de Agosto, se a maioria absoluta não fosse conseguida...?
Por estas três razões, e também por ter reconhecido, e de um modo  claríssimo, o desastre para que os povos do Mundo foram conduzidos  pelos ricaços de olhos azuis, sem que nada até hoje tenha sido feito  para evitar recidivas, e quando os erros anteriores estão já a  funcionar de novo à custa do endividamento desses mesmos povos, eu  presto aqui a minha homenagem ao arrojo de Arroja, embora não lhe 
augure um futuro com muitas presenças nos canais televisivos. Uma  surpresa!

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