O GUINDASTE E O RODÍZIO

2010-01-19

Muito se tem falado e escrito sobre a razão da existência do "guindaste" esculpido no túmulo do nosso 4º Conde de Ourém, existente na Sé Colegiada, sem que se tenha chegado a uma conclusão, tal é a omissão de quaisquer informações sobre o assunto, por parte do nosso Conde que nos deixou ainda mais quatro letras ligadas ao caso, para adensar mais o enigma.
Parece não haver dúvidas que o nosso Conde adoptou para seu emblema pessoal o "guindaste" e daí o tê-lo deixado esculpido no seu túmulo, - que não foi ele -, nos fechos das abóbadas dos seu Castelo de Porto de Mós, quando o apalaçou, e ainda e com requinte o ter mandado pôr em relevo em dois sítios na base do seu relicário de prata, que supomos estar presentemente, no Museu de Arte Antiga. E ele ter-se-ia maravilhado, mesmo enfeitiçado, por aquele utensílio tecnológico quando o viu ser utilizado pelos operários quando da construção do seu Paço e das suas Torres, ao içarem lá para cima as grandes e pesadas pedras e outros materiais.
Mas por incrível que pareça o caso não deve ser assim tão enigmático como se pensa. É que, precisamente, naquela mesma época ele não foi caso único. Um outro ilustre personagem adoptou também para seu emblema pessoal um outro utensílio tecnológico, o "rodízio" e dele teria deixado larga informação: Foi nada menos que o seu primo e amigo o Rei D. Afonso V, que também se teria seduzido por aquele objecto, uma rodinha tosca e mal acabada de tirar água que fez rodar galgas e mós, aproveitando a força da água, utilizada primeiro em moinhos de água, as azenhas que por essa época se teriam disseminado por todo o País, e depois em lagares de azeite e outros.
Mas não foram só o guindaste e o rodízio os utensílios tecnológicos até então idealizados e construídos pelo homem para lhe facilitar as tarefas. Está neste número também o "arado de aiveca" tão necessário e útil para arrotear e desbravar os solos escalavrados do nosso País, que nos seus primórdios eram, literalmente, cobertos de florestas de pinheiro manso e carvalho lusitano, no Norte e de sobreiros e azinheiras no Sul, que tiveram que ser queimadas. - Parte do norte do nosso Concelho era abrangido pelas matas de Carvalho lusitano-. É que os solos eram absolutamente necessários para serem aproveitados para a produção agrícola para a alimentação e moeda de troca e ainda para o pastoreio.
Não se sabe exactamente quando e como é que este arado começou a ser utilizado no nosso País. Como os outros teria sido nos segundo e terceiro séculos da nacionalidade, quando também se começou a usar o ferro em ferramentas manuais e outras, que até então eram de madeira. Por isso é natural que se possa considerar que então teria havido no nosso País um "surto tecnológico" que em muito facilitou a resolução das tarefas laborais a que todos se propuseram.
Ora os nossos primos estavam a assistir a esse "surto" e a verificar que o desenvolvimento do nosso País estava a aumentar progressivamente devido á utilização dos referidos utensílios, e como eram homens inteligentes e muito cultos, pois tinham andado em várias Universidades, -  o nosso Conde andou mesmo na Universidade de Bolonha -, onde então, talvez já se tivessem dedicado ao estudo das tecnologias, das forças e dos movimentos, que teriam feito deles mais homens de ciências que de letras, como se verificou depois ao dedicarem-se àqueles utensílios. E teria sido esse ?surto?, esse desenvolvimento e a sua predilecção por eles a razão que se procura para serem considerados seus emblemas e estarem em vários sítios bem em evidência, como o guindaste no túmulo, no Castelo de Porto de Mós e no relicário e o rodízio no Convento do Varatojo, em Torres Vedras, fundado pelo Rei D. Afonso V, em     , pintado em vários lugares e em especial e em profusão nas abóbadas do Claustro do referido Convento. Além disso ele quis deixá-lo ainda mais em evidência ao mandá-lo esculpir numa grande pedra que mandou encrustar na parede fronteira da igreja conventual, ladeando pela direita o grande pórtico gótico, que pela esquerda e em simetria, tem outra evidência com o seu brasão de armas.
De considerar que D. Afonso V  para se veicular ainda mais ao rodízio, que ele teria previsto que no futuro seria de grande utilidade, teria deixado expresso que ele deve significar que um Monarca deve movimentar-se continuamente sem serviço da Nação, ao contrário do nosso Conde que com a sua casmurrice nada nos deixou para que pudéssemos veiculá-lo ao seu emblema.
E ainda diremos mais que o rodízio, aquele objecto tosco e mal acabado que foi idealizado inicialmente apenas para tirar água, com as alterações e modificações que tem sofrido e depois de aligeirado no seu peso e atrito, é, hoje, talvez, o maior fazedor de electricidade nos nossos tempos, com o nome de "turbina".

 

 

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